Quando o marido chegou em casa, após um árduo dia de trabalho, encontrou-a sentada no sofá lendo uma revista feminina. Trocaram algo que lembrava um cumprimento, algo mais formal que sentimental. Ele foi até a cozinha para beber um gole de água e também para dar tempo... Viera o caminho todo pensando em como abordá-la. Imaginava a cena. Os anos de convivência permita que antecipasse toda aquele diálogo... Ela se defenderia com unhas e dentes e tentaria provar sua inocência. Ela que sempre tinha argumentos para tudo. "Você também teria se lesse um pouco, mas nem liga", disparou ela num dia quente de discussão. "Eu? Ler essas porcarias de mulher? Nunca". Foi o que disse sentindo-se o macho da casa, a voz da razão. Por que leria aquelas coisas tolas? Sua vida, seu trabalho, seu tempo, tudo era de grande preciosidade.
Escolhia as palavras com cuidado. E que horas falaria? Agora. Fale agora. Se você com ela já teria te matado antes que chegasse na soleira da porta. Sentou-se no sofá. A T.V. ligada... Ela mergulhada em sua leitura, nem dera muita atenção a ele. Ou fingia. Transbordava em beleza diante dos olhares angustiados que seu marido lhe dava... A agonia crescia com o passar dos minutos. Fale. Agora. Agora mesmo. Ou nunca mais. Abriu a boca e as palavras não vinham... Estancaram-se na garganta. E se eu deixar para lá? Esquecer? Deixar quieto? Talvez seja mentira. Não era. Todos os indícios estavam ali. Ela nem tomara cuidado em esconder. Agira como uma...
_ Vadia!
_ O que foi que disse? A esposa agora olhava para ele espantada. Será que era mesmo que ouvira. Não era possível! O marido a encara com os olhos cheios de água e ódio.
_ Eu soube... Eu sei... Você... Como pôde? Eu sempre te respeitei e você... Você agiu como uma vadia....
_ Não estou entendend...
_ Túlio!
_ Hã? Aquele nome cuspido pelos lábios do marido a fez estremecer. Como soubera? Encarava o marido atenciosamente.
_ E então? Perguntou o marido que dava sinais de querer saber. E seus olhos de um ódio magoado não aceitariam qualquer argumento. E ela foi objetiva.
_ Foi só uma vez.... Fraquejei. Não queria. Mas, aconteceu e se eu pudesse apagar o passado....
As mãos dele se fechavam pelo nervosismo e ela temia pelo pior... Não havia saída.... Meu Deus!
_ Olha, eu te amo. Te amo muito. E percebi isso quando estava com ele. Era em você que eu pensava enquanto era tocada. Era em você que meu pensamento buscava. Minha boca sussurrou teu nome várias vezes... Milhares de vezes. Então, meu amor... Eu só pensava em você, só em você....
Ele foi até ela. Sentia a força de suas palavras. Ela encolhia pensando que apanharia dele. E de repente o gesto, o beijo apertando seu lábios... O homem levantou-se em silêncio, saiu pela porta para rua, para o mundo carregando dentro de si o melhor argumento que ela lhe tinha dado e que ele aprendera. Agora poderia viver seus amores proibidos sem culpa, pois pensaria muito na esposa, muito, muito mesmo.
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