segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sonho de areia

É como estar numa praia. Sentindo aquele vento amigo batendo no rosto numa carícia necessária. O sol brilhante dourando todo o paraíso. O tempo que anda passos curtos para minha alegria. È assim a sensação que carrego quando estou em paz, quando estou em Deus. Nesse eterno paraíso de um mar que nunca se cansa de ondejar.
Vejo as pessoas indo e vindo. Em todos os rostos aquele toque de felicidade permitida e muito rara. Não estou falando de uma praia qualquer. Estou dizendo do estado da minh’alma. Na entrada dela tem uma placa que diz que o paraíso está logo ali. Caminho primeiro entre pedras com meus pés descalços e chego à areia fofa e quente dos meus sonhos.
Passo os olhos nesta paisagem calma que me diz que tudo é perfeito. Começo a brincar com as crianças que sempre que mostram que sonhar é possível. Com baldes e pás começo a dar forma aquele monte de areia que tantos calcaram. O sorriso vai tomando forma também em meu rosto que me faz ser criança também. Sinto-me um deles naquele momento, numa felicidade egoísta, de um sonho que vai sendo construído com minha mão. O castelo já tem torre, paredes, um penhasco e fosso. Tudo feito com cuidado esmerado. Certa delicadeza. Paciência.
Num instante, tudo está pronto. Olho minha arte enquanto essas crianças batem palma e fazem festa. Sorrio abertamente orgulhoso de meu castelo que não tem rei ou rainha, nem príncipes, nem princesas, somente um lugar que poderia ter sido meu se a maré das potentes realidades não viesse em forma de onda levando todo meu trabalho a ruína. As crianças tristes correram para suas casas e eu fique ali perto do monte de areia que um dia foi um sonho.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Maõs da rotina

Apenas queria que soubesse que neste momento a tua companhia não me ajuda. Sei que você também não tem culpa, apenas existe como eu existo. E isso não depende de nossas escolhas. Em algum momento lá estava eu e dentro de mim, nas entrelinhas da vida, estava você. Desde então de alguma forma tive que aprender a conviver com você que anda comigo diariamente fazendo a minha vida ter esse ciclo que não cessa. Tem a ajuda do tempo, das horas, dos momentos.
Queria poder lhe dizer o quanto estou ultimamente me sentindo mal em relação a você, não por você em si. Não. Acho que tenho que aprender a lidar com o que sinto a teu respeito. O que sinto? Impotência. Fraqueza. Como se minha liberdade se limitasse ainda mais nas regras que tua presença me impõe. Regras que existem pelas tuas mãos e que a quebra-las posso me sentir vivo em algum momento sabendo que depois voltarei a estar nas tuas mãos.  Contigo aprendi a andar, claro. Apontou-me caminho para eu trilhar e foi muito importante para meu crescimento, porém, olho ao meu redor e vejo outros tantos que seguem o mesmo caminho. Todos marchando com mesma perna e pensamento. Não sou eles e eles não são eu. Sou único. Eles são únicos. E você põe a regra que devemos ter alguma igualdade.
Nunca fui igual a ninguém. Nem que eu quisesse. Tenho modos meus de ser e de fazer dentro de você. Tenho meu modo de existir e sei que sem você é impossível. Sei que oferece um chão para eu pisar e plantar meus sonhos. Mas, quero ter sempre a primazia de escolha do que quero plantar. Quero poder sonhar, sonhar muito e ter direito de desistir dos meus sonhos a qualquer momento sem pedir permissão aos outros. Quero poder simplesmente existir sem qualquer prisão. Respirar livremente nas minhas idéias de mundo. Sem me preocupar se está errado em relação a maioria. Não sou a maioria. Sou único. Como você é única em minha vida. Espero poder aprender a viver em paz contigo, mesmo sabendo que nesta luta é que me torno especialmente individual e vivo.
Num dado momento, escaparei de tuas mãos e, como uma criança, vou me esconder. Enquanto não me achar vou aprender que posso tirar folga de você e ser feliz em qualquer minuto desta separação. Até lá seguro tuas mãos macias e frias neste dia ensolarado que convida para brincar de ser feliz.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Matando a fome

De repente me deu uma fome de algo novo, diferente. Algo que todo mundo sente necessidade em algum momento. Uma fome de viver. Essa fome veio me tomando o ser inteiro. Tanto que me pegou de surpresa sem saber ao certo como começar. Começar nem sempre é fácil, nem sempre é previsível. A fome nos leva ao alimento. Sinto fome de poder experimentar a vida nos diversos temperos por aí. Um pouco apimentada talvez, menos salgada, mais saborosa, menos insossa. Sinto vontade de devorar sem pensar se estou cometendo alguma gula. Vida não engorda.
Levado por essa grande vontade já fui às bancas das livrarias e nas páginas de internet encontrei algumas receitas sim, mas nenhuma delas foi capaz de saciar minha fome. Parecia tudo muito pequeno, reduzido demais nas fórmulas. Receitas prontas não fazem muito meu gênero. Decidi pegar essas receitas e mistura-las dentro de mim e fazer uma receita que seja própria a minha fome.
Não preciso ir ao mercado buscar qualquer coisa. Tenho todos os ingredientes. Nasci com eles. Alguém um dia falou que viver é simples. Se assim fosse por que tanta gente ainda morre de fome por aí? Simplicidade complicada essa. Talvez porque as pessoas transformem esse momento tão simples e singelo numa grande aula de química. Onde temos que juntar elementos e decorar fórmulas já prontas por algum sábio. Nunca gostei das aulas de químicas.
Para muitos a hora de comer é um tormento. Come-se com pressa porque o tempo é curto demais. Ou então se come pensando na sobremesa e esquece que tudo tem seu tempo. Diversão não é tudo. Enfim, estou aprendendo a saborear cada momento porque sei que único e que esse sabor é que tempera todas as coisas. Acordei mais leve hoje, mais satisfeito por querer aproveitar a vida. Não tem uma receita, mas tem um monte de elementos que juntando pode dar aquele toque inesquecível que dará algum sentido ao curto tempo que temos para saciar a nossa fome.

domingo, 24 de abril de 2011

Ganhando distância

Tem gente que me questiona até hoje dos meus sumiços. Explico-me. É que tem períodos de minha vida que eu me sufoco com meus compromissos, com meu cotidiano, com as pessoas amigas ou não. Nesse momento que algo dentro de mim diz que é hora de tomar distância e lá vou eu saindo por uma porta qualquer e indo por ruas tortuosas em busca de paz. Encontrei muitas vezes, viu?
Não sei como os outros lidam com o peso do dia a dia, mas comigo é necessário esse distanciamento para respirar um novo ar. Refrescar minhas emoções. Tomar novos ares e conhecer a vida de um outro jeito. E funciona porque sempre volto mais forte. É como aquela modalidade atlética de salto com vara que precisa tomar distância para poder voar além do limite estabelecido. E como tem limites na vida. Muitos que nós mesmos permitimos. Lá vou eu ganhando distância para depois saltar o mais alto que eu puder e se for possível voar além desses limites nojentos que fazem com que a gente acredite que a vida se resume aquilo, que nada além dos montes tem outras estradas que levam a tantos caminhos, basta transpô-los.
Neste momento me distanciei de um monte de coisas e ainda sinto-me perto demais. Dou passos para trás (não no passado) apenas vou ficando como observador de algumas coisas. Vejo muito. As pessoas me ensinam muito até com seus erros e tento aprender, é claro, com meus erros também. E tem essa. Às vezes tomo distancia de mim mesmo porque acabo muitas vezes sendo meu próprio obstáculo. Pulo, pulo mesmo. Para depois poder soletrar com todas as letras possíveis a palavra FELICIDADE.
Ninguém entende minhas distâncias, mas elas fazem parte do meu kit de sobrevivência que acredito que todo mundo tenha. Possuo muitas coisas ali que me “protegem” de algumas situações. Digo algumas porque sempre algo me surpreende e isto é bom. Gosto de surpresa, gosto de não ter roteiro, de não ter placas no caminho. Gosto de caminhar sem rumo de vez em quando. Sem me preocupar com o horário da volta. Um dia eu volto, sempre volto, porém com algumas diferenças: estou mais forte. Menos desgastado.
Neste momento estou distante, sei que estou. Estou de férias de algumas tantas coisas. E está tão bom. Viajar sem mala. Sem nada. Viajar sem sair do lugar, porém estar em outro mundo que se esconde dentro de outro tantos mundo esperando que alguém os descubra. Vou caminhando, não posso parar de vez. Paro somente para ver o por do sol. Até o sol tem seu descanso por que não terei o meu? Noites calmas que me escondem. Eu fico apenas contando as estrelas que brincam no céu. E digo a elas que um dia desses as alcançarei com certeza. Elas sorriem brilhando ainda mais. Um dia pulo nessas alturas, mas até lá vou apenas ganhando distancia.

Sabor de Páscoa

Para muitos esse dia de páscoa tem sabor de chocolate, onde cada qual abre seus ovos e se deliciam como nunca. Parece que o chocolate ganha um sabor mais que especial nessa época. Parece que tem um toque de magia nele nesta data e é imprescindível não levar a boca um pedaço que seja deste alimento divino e santamente doca à boca. Porem, mais que chocolate essa data deve ter um outro sabor que muito nem pensam. Um sabor que necessitamos sentir todos os dias mais do que qualquer outro alimento. Precisamos deste sabor de recomeço. Páscoa para mim é um recomeço uma nova manhã. É aquela página em branco onde posso escrever meus rascunhos, meus borrões sem medo. Porque existe ressurreição...
A morte não é mais capaz de segurar nossos sonhos porque esses ganharam asas capazes de subir tão alto, tão alto...
Precisamos crer que existe uma nova chance para seguirmos em frente e que não existe mais lugar ao desespero na nossa vida, apenas desejos a se realizar.
Muitos gostam de se lamentarem de suas dores, de lamberem suas feridas e isto não leva a nada. Essas coisas acontecem e pronto. Viver é machucar-se sabendo que em algum lugar encontraremos remédio. Páscoa é um remédio ao tédio em que nos metemos. Essa rotina caótica que nos engole freneticamente sem que o percebamos. Somos capazes de sonhar, de voar, de subir além das nuvens. Cadê suas asas. Lembre-se que morte é passado. E seu passado é morto. A vida acena a alguns metros a frente, logo chegaremos se andarmos. A velha amiga nos sorri e quer contar novas histórias e enfeitar nossas vidas com a magia daquele momento que depois morre em algum lugar no passado para ressurgir na nossa memória. Sim, viver e morrer faz parte, mas podemos escolher hoje se queremos esse sabor de poder viver cada momento como único. E ter em nossa vida um sabor maravilhoso desta páscoa sem fim.

Intimos

O casal era perfeito. Havia se conhecido há muitos anos atrás e todos que os conheciam sabiam como terminaria aquela história: no altar. Desde o primeiro momento houve aquele laço que os amarrou eternamente um ao outro. Era um tipo de pacto feito nas ações mais do que as palavras. A base de tudo entre eles era a verdade, pura e simplesmente. Com esta verdade, não havia entre eles nada desconhecido. Suas almas eram mais que transparentes. Um podia ler o outro com tamanha facilidade que o resultado só podia ser aquela de sentir-se seguro.
Aquele tipo de sinceridade entre eles chamava atenção dos outros casais amigos. Perguntavam se tamanha verdade não poderia causar medo ou algo assim. Segredos são necessários para sobreviver, afirmavam. O casal meneava a cabeça. Amavam a verdade transparente e liquida que jorrava naquele relacionamento. Saciavam-se mutuamente com o que o outro era na verdade. Mesmo que às vezes aquilo que o outro às vezes aparecia de forma dolorida, mesmo assim, pois até as feridas eram conhecidas.
Chegaram num tal ponto de intimidade que as palavras não tinham mais importância alguma. Apenas um olhar bastava para saber do que o outro precisava. Fosse o que fosse. Tudo era fácil de ser compreendido. Atendido. Com o tempo essa verdade foi se tornando cada vez mais dura e insensível. Desapareceu um pouco o carinho humano que havia entre eles, sumiu o respeito. As palavras vinham sem alma, sem segredo, sem emoção. Começaram a desprezar um pouco sua própria verdade que pontiaguda eram enfiadas em suas carnes todos os dias.
Já se tornara suportável aquele cotidiano sem qualquer cortina que os protegesse contra o outro. Aquela maneira obvia de vida. Aquela maneira previsível de se olharem e se entenderem, tudo era pesado demais. Fazia falta a surpresa, o mistério, aquela maneira sinistra de não saber nada ou quase nada sobre o que o outro é ou pensa. Precisavam de segredos urgentemente. E assim, decididos se afastaram cada qual seguiu seu próprio caminho para conseguir seus segredos.
Nos primeiros dias era uma novidade horrível, depois foi suavizando. Foram bebendo daquela maneira única de viver sem que o outro tivesse conhecimento. Amigos novos, lugares novos, experiências novas, tudo novo e imprevisível. Os dias nunca eram iguais. Nunca se repetiam. Aprendiam muitas coisas. Quando acharam que já estavam bem abastecidos de segredos, voltaram. E quando os olhos de um colaram nos do outro, um irradiante sorriso abriu-se generosamente nos lábios. Porque já eram estranhos.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Antes de entrar

Limpe os pés antes de entrar
A porta está aberta
Gire o trinco
Entre em silêncio
Não cante
Nem assovie
Preciso me ouvir
Falo tão pouco comigo mesmo
Já ouviu sua própria campainha?
Tim tim tom tom
Eles sempre chegam
Mesmo quando já estou deitado
Sempre chegam para me ouvir
E eu nunca falo
Não falo o que querem
Falo outras coisas
E eu...
E nós...
Batem a porta e se vão
Deixando pegadas por onde passaram.
Por isso digo limpe bem os pés
Mesmo assim sei que verei tuas pegadas
Sempre os que entram deixam marcas
E terei as suas também, meu bem.
Não é nojo.
É entendimento.
Não é bobagem.
É fato.
Sempre fato...
Hoje estou aqui
Vou te receber
Entre nós...
Sintonia.
Amor. Sinfonia. Campainha que soa...
Nós dois... Uma história que tem portas abertas...
Para quem quiser entrar.

sábado, 16 de abril de 2011

Felicidade nua

O que mais chamava atenção em Dona Emilia não era o fato dela viver sozinha por que solidão na sua idade era natural, uma marca daquela idade que avançava sempre ladeira abaixo. Também não era o fato dela ser viúva porque precisamente é coisa da vida saber perder, principalmente se for entes queridos que tanto amamos. Nada disso. Ela se distinguia pelo modo como andava, falava, cantava a vida. Tinha uma energia que emanava dela que dificilmente se encontra em outra criatura humana. Ela se divertia com qualquer coisa que a vida lhe oferecesse, sofria tudo também, mas as lágrimas que lhe vinham era de uma gratidão por estar viva e poder sofrer quando tanto nem isso podem mais. As mãos enrugadas demonstravam força quando apertava as outras mãos conhecidas e amigas daquele bairro antigo. Morava ali há muito, muito tempo. Fazia parte dela aquele lugar. Cada esquina, cada pedra do chão, cada folha de cada árvore a conhecia.
Todo mundo olhava para aquela mulher tentando ao menos saber seu segredo. Para ela a felicidade lhe vinha tão fácil, automático. Sempre sorria, sempre brincava, sempre de bem com a vida. Uma pessoa extremamente cheia de energia. As crianças chamavam-na carinhosamente de Mimi e ela adorava. Namorados? Aos montes, mas todos acabavam indo embora por não agüentar tamanha felicidade. Viver com ela é estar permanentemente numa festa com musica rolando uma atrás da outra. Ninguém tinha aquele pique. Ela dava de ombros e continuava. Entendeu que as pessoas precisam de uma dose diária de tristeza e mazelas, mas ela em algum lugar lá no fundo de sua história abriu mão do sofrimento e decidiu mostrar sem frescuras sua felicidade. Decidiu que sua felicidade nunca dependeria dos outros, somente dela mesma. Que reclamar não faz nada a não ser contaminar as pessoas ao redor com seu pessimismo. Decidiu que sorrir é gratuito e mágico, transforma cada momento em ouro valiosíssimo.
Sua rotina era simples, porém vividos intensamente. Respirava o ar sentindo o cheiro da vida. Não tinha mais pressa para chegar porque descobrira que o itinerário é tão importante quanto o destino que se deseja. Expressa sempre sua bondade, não para exibicionismo de uma piedade cristã, não nada disso, fazia-o apenas para tornar as pessoas tão felizes quanto ela. A felicidade, dizia ela, faz com que desejemos compartilhar de algum modo. E ela compartilhava, ainda que para muitos, Dona Emilia fosse uma velha louca, ou então uma viúva alegre. As pessoas tinham medo daquela felicidade perigosa que era tão vivida nela. Uma doença que poderia ser contagiosa e tirar aquilo que o ser humano preza durante toda a sua existência o direito de ser triste, de morrer na sua própria poça de lágrimas, lamentando-se do não tem e também do que possui.
Dona Emilia caminha lentamente indo rumo a padaria. Ainda sorri com a mesma intensidade sem dar bola aos comentários. Ainda vive na sua felicidade nua que não precisa de disfarce ou de desculpas para existir. Apenas existe e pronto. Apenas existe e pronto. Dona Emilia é assim, apenas é feliz e pronto.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A muralha

Apenas fechei as cortinas. A janela mostrava demais e eu não queria ver o mundo e nem ser visto por ele. Puxei silenciosamente as cortinas que se renderam a minha vontade e depois de fechadas notei que de um lado estava eu com minha solidão amiga e do outro o mundo com sua própria solidão. Fiquei feliz com essa divisão porque no momento o mundo é cheio demais para mim. Quero apenas um espaço para estar. Apenas um pequeno espaço onde posso ser eu mesmo e nada exigir ou ser exigido. As cortinas bloqueiam a curisidade e afastam qualquer visita indesejada. Fico eu mesmo aqui comigo mesmo.
Incomoda-me muito saber que alguém me olha, me analisa, me deseja ou me repele. Neste momento não desejo nada disso. Não desejo que me vejam. Quero ficar escondido atrás dessas cortinas tão claras e minhas cumplices. Elas estão comigo neste meu desejo de ser sem ser visto, analisado,massacrado. Nunca sou o que os outros veem. Nunca sou o que eu estou vendo. Tudo é um defeito de ótica tão grande, tão grande. Evito também olhar além das cortinas porque existe uma multidão de coisas acontecendo daquele lado. Vida em movimento que me atordoa. Muita vida, muita energia e eu querendo ficar um pouco apagado. Quieto em mim mesmo. Nada vejo, nada sinto, nada questiono...
Quando se cobre alguma coisa ela se torna sagrada. As cortinas tem o poder de esconder e sacralizar tudo. O mundo tornou-se mais sagrado para mim depois que fechei minhas cortinas, despois que me escondi e eu tornei um pouco sagrado para o mundo que não sobrevive sem fé. Tudo graças as minhas santas cortinas, amém.
Nem sempre elas ficarão fechadas. Haverá um momento em que as abrirei e permitirei que o mundo me veja como quiser até lá apenas fico desse lado da muralha existindo e deixando que tudo o mais exista sem minha observação.

Mais tarde

Existe aqui e o agora, mas nenhum deles é o que eu preciso no momento. Estou doente e o tempo me cobra tanta saúde que me mata aos poucos. Tenho que sorrir sem vontade e viver sem vontade. Vou arrastando a minha exitência num chão pedregoso de interrogativas sem respostas. Ouvi minha própria voz perguntando-me o que eu terei... e não soube me responder. Eu agradeço aquela solidariedade de se calar. Tem feridas que cicatrizam meu bem e eu sou uma delas. Basta o tempo quieto que vai entrando ou saindo de mansinho na ponta dos pés.
Agora não tenho as respostas de ontem. Velhas perguntas que ainda rolam por aí. Velha mania de dar nomes aos bizarros seres que existem dentro de mim. São todos selvagens e territoriais. Cuidado. Decifra-me ou devoro-te. Agora estou tetando apenas não pensar muito porque de nada adiantaria pensar, sinto todo esse vazio de exitência que já me perturbou no ontem, mas no hoje apenas me faz companhia numa mesa do chá. Eu existo nesta falha do tempo que insiste em correr pelos meus corredores gritando que ainda tenho o tempo. Mentira. Nunca o tive. Sempre ele me teve. Sempre, sempre e isto me enlouquecia porque não quero neste momento pertencer a ninguém e nem possuir ninguém porque não tenho forças. Se quiser fugir é esse o momento. Não correrei atrás de você. Vou andando pelos meus desertos sem nome. Comendo as areias que o vento sopra e o tempo marcando algumas pegadas aqui e logo ali. Vejo sinais dele em todo lado. Quer brincar comigo agora... E eu lhe disse: Mais tarde.

Debaixo do tapete

Tentei arrumar minha bangunça, juro. Coloquei algumas coisas que nada mais me serviam no cesto de lixo. Despedi-me de um outro eu que um dia existiu e de que não prestava mais. Esse era descartável demais. Joguei sem pensar duas vezes. Peguei todo minha culpa e incineirei. As cinzas voaram num vento qualquer que passou pela minha janela. Se foi...
Meus amores amrelados estava congelados numa foto apertada demais para conter minhas emoções. Os amores não eram importantes quanto eu pensava. Serviram para me mostrar minha capacidade de amar... de odiar... de esquecer. Rasguei alguns desses amores antigos em mil pedaços. Amores que andam e falam, mas que me despedi tarde demais.
Lavei os objetos. Coloquei tudo dentro da copa. Tudo numa perfeita desordem. Nem me incomodou isso visto que nesta desordem achei minha liberdade perdida. Peguei-a com cuidado extremo. Ela é frágil, tímida. Agarrei-a junto ao meu corpo. Parecia bem menor do que eu me lembrava... Talvez seja por isso tão fácil de perde-la. Sei que se eu não tomar cuidado vou perde-la novamente e talvez nunca mais tenha chance de achar. Nem São longuinho me ajudará então...
Varri minhas poeiras todas. Foi dificil ver que tudo se reduz naquela poeira toda. Que tudo se diminue, se dissolve. Que tudo se esquece, perdeo sentido, o valor. O nome passa. Tudo que sentia em relação aquilo acabava sendo somente alguma coisa varrida debaixo do tapete.

Eclipsado

Lá estava minha lua que não vejo mais... e também minhas estrelas que pararam de sorrir em minhas noites. Algo me diz que não verei tão cedo o sol brilhar. A ùnica luz que vejo são pontos longiquos de lembranças que acenam num despedida ou numa chegada? Nunca se sabe.
Olho meu céu e tremo de pavor. Nada vejo. Essa escuridão me diz que minha noite é infinita. Que é melhor se acostumar porque será assim por um bom tempo. Esperança. Sei que é um virtude. Sei que devo cultiva-la,mas nesse momento é apenas um nome de uma música que ouvi em qualquer esquina e se calou. Sinto-me sem esperança, sem nada. Estou vivo? Sim respiro ainda se viver for apenas respirar porque todo o resto está coberto pelo eclipse que teima em existir. Possivelmente ele exista para que possamos dar valor aos dias ensolarados, aos dias festivos que as crinças brincam na rua. Agora quero brincar, mas nessa escuridão estou sozinho e sem sono. Se eu dormir não sonharei.
Tudo se torna misterioso demais neste negror. Toco com cuidado. Piso com cuidado. Olho com cuidado. Tudo em vão. Esse noite é afiada como um faca e vai me cortar em mil pedaços.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Roda dos mundos

Sim, era um reunião. Uma reunião de oração em que cada alma ali presente buscava um tipo de salvação. Havia um desejo de tocar no mistério que os envolvia. Um mergulhar no próprio oceano de insciência que nascia nos lábios que mexiam articulando palavras. Não eram as palavras importante, mas o que elas apontavam. Palavras são apenas uma ponte que a gente decide ou não atravessar. Muitas vezes não atravessei. Faltou coragem de minha parte. Infelizmente às vezes sou covarde e muitas vezes sabendo disso.
Havia eu e eles. Rostos que muito bem conhecia porque não era a primeira vez que nos reunimos. Já haviamos tecido um pouco de história entre nós. Já havia lembrança e isto que a vida permite que tenhamos: lembranças. Porque todo o resto é engolido pelo buraco negro do tempo. Neste momento é de lembranças que me valho para escrever. Foi puxando os fios que vem trazendo as muitas reuniões que já tive, os muitos encontros que a vida me permitiu (alguns claro contra minha vontade, mas é assim que crence). Lá estava eu num canto qualquer da sala e depois num canto qualquer da mesa. Sentei numa cadeira já que a dona da casa insistia. Falava conforme os assuntos vinham sem saber no perigo que tais palavras poderiam causar. Falar é torna-se visível aos olhos do outro. Já sofri com isso porque nunca sou inteiramente o que revelo. Aquilo é uma parte borrada e todo mundo ao ver aquele borrado deduz que sou apenas aquilo. Não, não sou.
Ali a conversa nascia desprendendo dos lábios com certa rapidez de um tiro. As piadas, sim as piadas nasciam também com a intenção de descontrair e por alguma razão eu não me divertia. Talvez pelo fato de que tantas vezes fui citado no meio dessas piadas e aí o choque. Meu mundo estremecia como um terremoto que mais ninguém perceberia porque para perceber meus terremotos as pessoas tem que ser sensíveis. Risadas vinham estridentes. Calei-me tantas vezes desejando apenas que aquela reunião terminasse. Não somente a reunião, mas também minha missão que é tão somente existir.
Os outros mundos giraram em torno de mim. Olharam-me sem, porém me enxergar. Pensei em explodir. Apenas pensei. Não, não queria explodir. Talvez em meio aquilo tudo aprenderia com muita dor a valorizar as pessoas e seus mundos e nunca, nunca mesmo entrar sem pedir permissão. Porque pode ser que eu não seja bem vindo. Tem mundos que foram feitos apenas para existir e não podemos explora-los. Seu maior trunfo é o mistério que o envolve.
Os amigos comeram, beberam, falaram. Depois cada um seguiu seu caminho no tempo e no espaço. Fiquei outra vez sozinho comigo mesmo no meu mundo que tem seus prórpios mistérios que não tenho pressa de conhecer.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Noite e Tortuta

Nem me lmebro quando ela apareceu na minha vida. Talvez foi naquele exato momento em que tomamos consciência do lado negro de nós mesmos. Ela apareceu sem cerimônia alguma e foi se instalando. Sorriu e pude sentir seu hálito que me embrulhou o estomago... Alias até hoje sinto meu estomago enjoado quando penso nela. Estava mal trajada. Falava alto. Muito alto para ter certeza que eu ouviria cada uma de suas palavras. Não precisava. Havia até no silêncio que se fazia na pausa aquele odor do veneno exalado. Quis fugir. tentei fugir. Cada esquina que dobrava aumentava meu desejo de libertação. Ela não andava. Voava. Voava em suas asas negras de anjo da morte. Continuava falando e eu? E eu morrendo aos poucos com aquelas verdades cuspidas em meu rosto. Verdades que feriam meu intimo, me cortavam em pedaços impossivéis de se recompor... Era ali ali caido na sarjeta. Rezava para a terra se abrir faminta de mim e me engulir num só bocado. A terra não se abriu... Nem ao menos se importou comigo. Ningém se importou comigo naquela noite sem fim. E o desespero aumentando, aumentando tanto. O que fazer? Nem vicio tinha para descontar. Acho que é num desses momentos que alguém fuma, bebe ou simplesmente se entorpece para esquecer. Eu, pobre miserável,fiquei ali sentindo em cada fibra as duas palavras seguidos de duros silêncios que martelavam a minha cabeça sem parar. Fechei os olhos pensando em gritar. Gritaria até num nivel que sobrepusesse aquela voz maligna e mortal. Contei até três. Um... Dois... e... Silêncio.
Abri meus olhos procurando saber o que houve. Lá estava ela rendida ao chão feita em pedaços. E perto dela um Homem todo ferido passando por aquele beco escuro carregando uma pesada cruz. Nós trocamos olhares. Ele me viu e sorriu. Eu fiquei apenas olhando. No dia seguinte os jornais noticiaram que um inocente morreu em algum lugar e em algum tempo. Fechei meus olhos e pensei... Um inocente morreu por mim.

sábado, 19 de março de 2011

Mal Ditas palavras

Fico pensando no poder das palavras
No quanto elas podem ou não fazer
Será que sabemos o valor delas?
Com uma palavra podemos abrir portas
Ou fecha-las para sempre...
Elas controem intimidades
revelando o que há dentro de cada ser,
inclusive seus pensamentos mais secretos.
A palavra é um forma de materializar
o que sentimos, o que fazemos...
É um modo de dar nomes, substantivos, adjetivos...
Abrimos a boca e construimos um mundo...
Abrimos de novo e tudo desmorona...
Nesta hora o silêncio se fazia necessário.
Mas, as palavras sairam de seu cativeiro
ganharam o espaço
pestearam o ar
multiplicaram o significado.
Todos dizem alguma coisa
todos pedem palavra
poucos sabem usar seu poder...
Se soubessêmos... o mundo seria outra coisa.
É importante saber quem manda em nós:
as palavras ou nós?
Até lá que tenhamos cuidado com o que vamos dizer.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Momento tsunami

Todos temos momentos
nunca disseram que a vida é feita de fases?
Em que fase você está vivendo agora?
Todos temos necessidade de sentirmos vivos...
e cada qual tem sua maneira de fazer isto.
Mas, todos temos também nossas esplosões.
Nossos terremotos...
Nossos tsunamis....
Momentos em que vamos em frente a todo custo
passando por cima de tudo
de todos
Momento em que não respeitamos as regras.
quebramos todas elas
para que a palavra liberdade saia do dicionário.
Ei, olhe o que restou.
As pegadas dessa liberdade desmedida trouxe pegadas de destruição.
Valeu a pena?
Tudo que fazemos traz para nós e para os outros consequências.
Sente-se sufocado? Já pediu ajuda? já estendeu a mão para a mão amiga certa?
Existem mil modos de lidarmos com a vida...
Sem causar terremotos.
sem mortos.
Respeite seus limites
e assim viverá sem bem em qualquer maré que esteja sua alma.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um mundo de aparência

Fico muito triste quando percebo ao redor que cada vez mais as pessoas estão dando maior valor a aparência que o que existe dentro de nós. Em nome de uma vaidade ou de uma carência desregrada ficam na periferia do ser quando poderiam muito bem estar mergulhando nas águas profundas do próprio ser. Lá no fundo que existem tesouros inextiguivéis, no entanto, o que importa realmente a grande maioria é o externo.
Somos o segundo país que mais faz cirurgia plástica no mundo, ou seja, existe uma busca desenfreada por reparação estética. Mostra uma deficiência na auto estima nacional, um apelo que veio (talvez) da mídia que exibe diariamente um tipo de beleza que nem todos se enquandram.
As academias se enchem mais e mais de corpos buscando serem belos e sexualmente agradáveis e saudáveis...
Neste século valores espirituais e intelectuais estão emn baixa. Sinto-me envergonhado nesses aspectos. Apesar de ver tantas campanhas incentivando a leitura e a cultura geral ainda encontro pessoas que não curtem esse papo. Peraí... preferem o que? Algo que fique apenas na casca? Beleza é muito bom, ter corpo sarado é muito bom, mas me pergunto: e o resto?
O ser humano é um bicho complexo. Ele tem além do corpo, uma mente que precisa pensar e além disso uma alma que precisa de atenção. Quando tempo faz que você não exercita sua alma? quanto tempo faz que não assisti a um filme bom que leva a alguma reflexão? um livro que seja realmente instrutivo e não apenas um que esteja na moda?
Penso que só viver de fachada é se enganar. Chega uma hora que a verdade lhe sorri... E tudo desmorona. O corpo padece, a beleza diz adeus com todo vigor da juventude e resta.... bem... bem pouco.
Não sou contra buscar ser bonito ou saudável. Tem que se cuidar, mas não esqueça outras coisas que é importante também. Vivamos do essência aquele que no livro do Pequeno Príncipe nos diz que é "invísivel aos olhos".

Seja como as flores

Essa historinha tem autoria desconhecida mas traz uma sabedoria que deve ser compartilhada, espero que de hoje em diante imitemos as flores...

Em um mosteiro, um jovem discípulo questionou o seu mestre. - Mestre, como faço para não me aborrecer? Algumas pessoas falam demais, outras são ignorantes. Algumas são indiferentes. Sinto ódio das que são mentirosas. Sofro com as que caluniam. Insuportáveis são as falsas e invejosas.



- Pois, viva como as flores! Advertiu o mestre.



- Como é viver como as flores? Perguntou o discípulo.



- Repare nas flores, continuou o mestre, apontando os lírios que cresciam no jardim. Elas nascem no esterco, entretanto, são puras e perfumadas. Extraem do adubo malcheiroso tudo que lhes é útil e saudável, mas não permitem que o azedume da terra manche o frescor de suas pétalas.

Hora de respirar

Foi muito forte aquelas imagens de gente sendo resgatadas lá na região serrana do Rio de Janeiro. Familias inteiras embiaxo de toneladas de terras... Graças a Deus que houve sobreviventes que testemunharam como aguentaram aquelas horas passadas dentro da terra. Uma das coisas que me arrepia de imaginar é justamente ficar sem ar. Aos poucos seu organismo recalma por ar que está acabando, acabando. Imagina o terror que é precisar respirar e não ter ar. Precisamos de oxigênio para nos mantermos vivos. Claro que nem sempre respiramos como deveriamos. Sempre corremos e não damos um tempo para respirar profundamente deixando o ar entrar e fazer seu trabalho.
O homem moderno está enterrado sobre a pressão desse mundo que ele mesmo crio. A pressão que seu meio faz sobre todos faz com que a respiração e a própria vida fique difícil.
Aonde vamos parar? Ninguém mais sabe andar apreciando uma paisagem, as pessoas ao redor. NInguém mais tem tempo para conversar amigavelmente com os vizinhos sem ter que olhar para o relógio. Ninguém mais saboreia uma comida com aquele prazer que precisamos sentir. NInguém mais.
Todo mundo corre atrás do dinheiro, do emprego, do capitalismo, do escambal. NInguém mais presta atenção em sua alma que está sotterada num monte de entulhos desnecessários. Essa alma chora, lamenta, reclama e resiste em viver com o pouco de ar cedido a ela.
Liberte sua alma do cativeiro que você mesmo a colocou.
Respire um novo ar.
Sinta a brisa da tarde.
Converse, ame e viva....
Depois de experimentar isso duvido que queira voltar para debaixo dos entulhos....

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Onde anda Você - Vinicius de Morais

Num momento em que o termo musica é usado para qualquer coisa que mexa os esqueletos apenas e não diga coisa com coisa como rebalation e companhia, ponho aqui para os ouvidos mais refinados e apaixonados um pouco de Vinicius de Moraes....

Ele me bebeu

Esse texto belissimo (como todos) pertence a Clarice Lispector, cujas qualidades são dispensáveis de falar. O mesmo foi publicado no livro de contos Via crucis do corpo... Delicie-se com a leitura

. Aconteceu mesmo.
Serjoca era maquilador de mulheres. Mas não queria nada com mulheres.
Queria homens.
E maquilava Aurélia Nascimento. Aurélia era bonita e, maquilada, ficava deslumbrante. Era loura, usava peruca e cílios postiços. Ficaram amigos. Saíam juntos, essa coisa de ir jantar em boates.
Todas as vezes que Aurélia queria ficar linda ligava para Serjoca. Serjoca também era bonito. Era magro e alto.
E assim corriam as coisas. Um telefonema e marcavam encontro. Ela se vestia bem, era caprichada. Usava lentes de contato. E seios postiços. Mas os seus mesmos eram lindos, pontudos. Só usava os postiços porque tinha pouco busto. Sua boca era um botão de vermelha rosa. E os dentes grandes, brancos. Um dia, às seis horas da tarde, na hora do pior trânsito, Aurélia e Serjoca estavam em pé junto do Copacabana Palace e esperavam inutilmente um táxi. Serjoca, de cansaço, encostara-se numa árvore. Aurélia impaciente. Sugeriu que dessem ao porteiro dez cruzeiros para que ele lhes arranjasse uma condução. Serjoca negou: era
duro para soltar dinheiro.
Eram quase sete horas. Escurecia. O que fazer?
Perto deles estava Affonso Carvalho. Industrial de metalurgia. Esperava o seu Mercedes com chofer. Fazia calor, o carro era refrigerado, tinha telefone e geladeira. Affonso fizera quarenta anos no dia anterior. Viu a impaciência de Aurélia que batia com os pés na calçada. Interessante essa mulher, pensou Affonso. E quer carro. Dirigiu-se a ela:
— A senhorita está achando dificuldade de condução?
— Estou aqui desde as seis horas e nada de um táxi passar e nos pegar! Já não agüento mais.
— Meu chofer vem daqui a pouco, disse Affonso. Posso levá-los a alguma parte?
— Eu lhe agradeceria muito, inclusive porque estou com dor no pé. Mas não disse que tinha calos. Escondeu o defeito. Estava maquiladíssima e olhou com desejo o homem. Serjoca muito calado. Afinal veio o chofer, desceu, abriu a porta do carro. Entraram os três. Ela na frente, ao lado do chofer, os dois atrás. Tirou discretamente o sapato e suspirou de alívio.
— Para onde vocês querem ir?
— Não temos propriamente destino, disse Aurélia cada vez mais acesa pela cara máscula de Affonso.
Ele disse:
— E se fôssemos ao Number One tomar um drinque?
— Eu adoraria, disse Aurélia. Você não gostaria, Serjoca?
— É claro, preciso de uma bebida forte.
Então foram para a boate, a essa hora quase vazia. E conversaram. Affonso falou de metalurgia. Os outros dois não entendiam nada. Mas fingiam entender. Era tedioso.
Mas Affonso estava entusiasmado e, embaixo da mesa, encostou o pé no pé de Aurélia. Justo o pé que tinha calo. Ela correspondeu, excitada. Aí Affonso disse:
— E se fôssemos jantar na minha casa? Tenho hoje escargots e frango com
trufas. Que tal?
— Estou esfaimada.
E Serjoca mudo. Estava também aceso por Affonso.
O apartamento era atapetado de branco e lá havia escultura de Bruno Giorgi. Sentaram-se, tomaram outro drinque e foram para a sala de jantar. Mesa de jacarandá. Garçom servindo à esquerda. Serjoca não sabia comer escargots e atrapalhou-se todo com os talheres especiais. Não gostou. Mas Aurélia gostou muito, se bem que tivesse medo de ter hálito de alho. Mas beberam champanha francesa durante o jantar todo.
Ninguém quis sobremesa, queriam apenas café.
E foram para a sala. Aí Serjoca se animou. E começou a falar que não acabava mais. Lançava olhos lânguidos para o industrial. Este ficou espantado com a eloqüência do rapaz bonito. No dia seguinte telefonaria para Aurélia para lhe dizer: o Serjoca é um amor de pessoa.
E marcaram novo encontro. Desta vez num restaurante, o Albamar. Comeram ostras para começar. De novo Serjoca teve dificuldade de comer as ostras. Sou um errado, pensou.
Mas antes de se encontrarem, Aurélia telefonou para Serjoca: precisava de maquilagem urgente. Ele foi à sua casa.
Então, enquanto era maquilada, pensou: Serjoca está me tirando o rosto.
A impressão era a de que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de
carne. Carne morena.
Sentiu mal-estar. Pediu licença e foi ao banheiro para se olhar ao espelho. Era
isso mesmo que ela imaginara: Serjoca tinha anulado o seu rosto. Mesmo os ossos —
e tinha uma ossatura espetacular — mesmo os ossos tinham desaparecido. Ele está me
bebendo, pensou, ele vai me destruir. E é por causa do Affonso.
Voltou sem graça. No restaurante quase não falou. Affonso falava mais com Serjoca, mal olhava para Aurélia: estava interessado no rapaz.
Enfim, enfim acabou o almoço.
Serjoca marcou encontro com Affonso para de noite. Aurélia disse que não podia ir, estava cansada. Era mentira: não ia porque não tinha cara para mostrar.
Chegou em casa, tomou um longo banho de imersão com espuma, ficou pensando: daqui a pouco ele me tira o corpo também. O que fazer para recuperar o que fora seu? A sua individualidade?
Saiu da banheira pensativa. Enxugou-se com uma toalha enorme, vermelha.
Sempre pensativa. Pesou-se na balança: estava com bom peso. Daí a pouco ele me tira também o peso, pensou.
Foi ao espelho. Olhou-se profundamente. Mas ela não era mais nada.
— Então — então de súbito deu uma bruta bofetada no lado esquerdo do rosto.
Para se acordar. Ficou parada olhando-se. E, como se não bastasse, deu mais duas bofetadas na cara. Para encontrar-se.
E realmente aconteceu.
No espelho viu enfim um rosto humano, triste, delicado. Ela era Aurélia Nascimento. Acabara de nascer. Nas-ci-men-to.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"Ler devia ser proibido"

Esse video me chamou a atenção por falar de algo que a maioria ainda não tomou gosto: a leitura. Espero que depois de verem corram numa intante mais próxima e devorem a literatura. Leiam e sejam "subversivos" geniais...

Sem sexo até 2012 de Luis Fernando Verissimo

Eu nunca havia entendido porque as necessidades sexuais dos homens e das mulheres são tão diferentes.
Nunca tinha entendido isso de 'Marte e Vênus'.
E nunca tinha entendido porque os homens pensam com a cabeça e as mulheres com o coração.

Uma noite, na semana passada, minha mulher e eu estávamos indo para a cama.
Bem, começamos a ficar a vontade, fazer carinhos, provocações, o maior TESÃO e, nesse momento, ela parou e me disse:
- Acho que agora não quero, só quero que você me abrace....
Eu falei: - O QUEEE???

Ela falou: - Você não sabe se conectar com as minhas necessidades emocionais como mulher.

Comecei a pensar no que podia ter falhado. No final, assumi que aquela noite não ia rolar nada, virei e dormi. No dia seguinte, fomos ao shopping.
Entramos em uma grande loja de departamentos. Fui dar uma volta enquanto ela experimentava três modelitos caríssimos. Como estava difícil escolher entre um ou outro, falei para comprar os três. Então, ela me falou que precisava de uns sapatos que combinassem a R$ 200,00 cada par. Respondi que tudo bem.
Depois fomos a seção de joalheria, onde gostou de uns brincos de diamantes e eu concordei que comprasse. Estava tão emocionada! Deveria estar pensando que fiquei louco. Acho até que estava me testando quando pediu uma raquete de tênis, porque nem tênis ela joga. Acredito que acabei com seus esquemas e paradigmas quando falei que sim. Ela estava quase excitada sexualmente depois de tudo isso. Vocês tinham que ver a carinha dela, toda feliz!

Quando ela falou: - Vamos passar no caixa para pagar, amor?

Daí eu disse: - Acho que agora não quero mais comprar tudo isso, meu bem...
Só quero que você me abrace. Ela ficou pálida. No momento em que começou a ficar com cara de querer me matar, falei: - Você não sabe se conectar com as minhas necessidades financeiras de homem....

Vinguei-me! Mas acredito que o sexo acabou pra mim até 2012.

Chuvas de risadas

Sabemos que as chuvas que tem caido ultimamente tem sido uma tragédia. Muitas pessoas tem perdido muitas coisas, muitas pessoas, restando somente lama. Mesmo assim, sabemos que virão novos dias e que a esperança nasce junto com o sol em todas as manhãs... Recebi essas frases engraçadas sobre as chuvas em SP e quero compartilha-las. Não sem de quem se destina a autoria (se acaso souberem me avisem), que elas possam trazer o sorriso no rosto e mostrar que a vida é bela apesar de tudo....

- Depois de tanta chuva, o prefeito Gilberto Kassab anunciou a
construção da hidroelétrica do Anhangabaú.

- Em SP não se fala mais direita e esquerda... agora é bombordo e estibordo!

- Se a São Silvestre fosse em janeiro, o Cesar Cielo ia humilhar!

- Depois do Airbag, os coletes salva vidas são os opcionais mais
importantes nos carros de Sao Paulo.

- O melhor serviço de entrega em SP é do Submarino.

- Ninguém passa fome em São Paulo, Bolinho de Chuva é o que não falta.

- Vamos assistir a chuva lá em casa hoje??

- Quem acha que a água do mundo está acabando, não mora em SP

- Meu passeio ciclístico de hoje fiz de pedalinho.

- Agora, todo paulistano tem casa com vista para o mar.

- Tem carioca morrendo de inveja, agora São Paulo tem tres mares:
Mar_ginal Tiete e Pinheiros.

- A Dilma está lançando o BALSA-familia pra ajudar São Paulo

- Pelo menos a SABESP cumpriu o prometido: água e esgoto na casa de todo mundo.

- O Kassab tá trocando o bilhete Único pelo bilhete ÚMIDO!!

- A Marta Suplicy disse para o Kassab: Relaxa e bóia!!!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Indiferente

Sinceramente nem sei quando começou e nem estou interessado, apenas num belo dia deparei com aquela sensação tomando o espaço das diversas lacunas que existem em minha vida. Foi entrando e se fixando, criando raízes. Eu nunca fui bom jardineiro, já matei (sem querer) muitas flores de sentimentos nobres e muitas mudas de futuros que prometiam, mas essa resistiu a minha pessoa. Na sua idenpendência, aquele sentimento foi se destacando e envolvendo outros sentimentos mais fracos.
Foi com esse sentimento que me livrei de muitas situações e me livrei de quebrar a cara em outras fantasias que se apresentavam. Foi nele que me escondi. Protegi-me como pude e tive aquela sensação (ainda que falsa) de segurança.
Simplesmente tudo que se apresentava na minha frente, eu olhava com o sentimento de indiferença. Não importava mais o brilho do sol, o clarão da lua, as vozes de crianças na rua, nem qualquer outra coisa. Nem o tempo que me cobra sempre, nem ele conseguiu me abater porque estava com essa armadura que me tira do sentimentalismo.
Fiquei frio como um frezer para curar minhas feridas. Para me refazer, me reconstruir. Nesta indefrença mantive-me em pé e sobrevivi mais uma vez. Naquela ausência de sensações foi que eu tive esse espaço em branco dentro de mim mesmo para poder olhar mais uma vez para mim e ver que é possivel, apesar de tudo é possível não-sentir... e neste não-sentir me encontrar pronto para sentir novamente. Não se engane para sentir a vida que pulsa é preciso coragem.

Sou gota

Minha chuva que cai
que chora
que molha
que alaga
que sacia sede....
Minha chuva que invade
que insiste
que permeia
que existe
Chuva esta que não são minhas
Nem nossa
Nem tua
É livre
Ela vem derrubando
deslizando
acabando
Destruindo
marcando
Chuva chove chuva
Chove gota Chove
sou gota também
Neste solo quero molhar
Gota pequena
insignificante
que insiste
Insiste em existir

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Acreditar no amor

Mais uma vez vi meus sonhos no chão
como uma folha de papel sujo
com marcas pegadas de pessoas que nem sabem da minha história...
Mais uma vez a ilusão se desfez assim
num instante, sem que ao menos se provasse...
Mais uma vez vi meus demônios (são tantos) rirem de mim
de minha solidão
de minha crença.
Ainda insiste nesta ideia de amor?
gritam-me raivosos.
Isso é coisa extinta! Você é um trouxa em acreditar...
Nunca será feliz amando, porque o amor morreu.
Eu olho para eles com meus olhos marejados,
marcado pela dor.
Vejo que ele querem me convencer de qualquer jeito.
Vejo que muitos já acreditam neles...
Vejo que raros são os que não dão ouvidos...
Melhor nunca sofrer,
ser indiferente,
ignorar essa marca de nossa alma humana.
O que nos humaniza.
Sem esse amor, somos mais "fortes"...
Eu olho ao redor.
Busco alguma resposta às minhas proprias perguntas.
E a esperança luzindo lá no fundo de meu coração
grita para que eu não desista.
O amor é para os fortes
que não tem medo de sofrer para fazer o outro feliz
e a recompensa que dele vem é invisiveis aos olhos dos demais.
Acredito no amor que nunca mentiu dizendo que seria fácil.
O amor sempre disse que a felicidade que dele brota vem com espinhos
Espinhos que ainda sinto fincado aqui dentro...
e a dor me faz sorrir.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Naquela Tarde

Tudo que pensei naquela tarde foi pensado e mais que isso construido para você. Acordei sonhando em te ver, te sentir e fazer com que o paraíso pousasse na terra e nos arrebatesse porque simplesmente merecemos ser felizes. Merecemos? Tudo foi tecido de modo a cobrir nossos sentimentos num manto de puro desejo que funde na entrega total, no momento em que cede.
Havia preparado minha alma para te encontrar. Tirei meus medos e devolvi a gaveta, tirei o pior de mim e joguei pela janela e me despi de tudo que poderia de algum modo ferir aquele momento esperado, sonhado, desejado. Tudo construido em cima de promessas que foram sendo feitas nas horas da maddrugada em que a solidão é mais dolorida, mais real. Nem havia muita esperança antes de você aparecer. Havia apenas um grande festio perante a vida e aquele momento em que nada acontecia até que você, em meio a uma multidão sem rosto, apareceu e me envolveu em cada palavra dita num silêncio profundo. Cada palavra alimentou meu sonho em te encontrar. Enfim, cada passo que dei foi para me aproximar de ti naquela tarde em que o sol ardia.
Na hora do combinado, eu estava lá. Naquela hora eu estava ali para te receber com meu melhor sorriso seguido do meu melhor abraço. Queria que soubesse que o calor de meus sentimentos por você seriam tão intensos e cheios de calor que faria o sol, astro rei sentir uma ponta de inveja.
Queria que soubesse o quanto seria feliz naquele momento e em todos que poderiam vir. Queria que soubesse a chance que a vida lhe deu e simplesmente passou como um vento que segue em frente sem olhar para trás.
O telefone te chamou várias vezes e só recebi teu silêncio. Não faz mal. Recupero esse tempo pensando que fiz o meu melhor. Cumpri minha palavra te dando uma chance, correndo para te tornar real na minha vida.
Talvez um dia sinta na sua pele a tarde vazia que por tua culpa nunca aconteceu...