sexta-feira, 29 de abril de 2011

Maõs da rotina

Apenas queria que soubesse que neste momento a tua companhia não me ajuda. Sei que você também não tem culpa, apenas existe como eu existo. E isso não depende de nossas escolhas. Em algum momento lá estava eu e dentro de mim, nas entrelinhas da vida, estava você. Desde então de alguma forma tive que aprender a conviver com você que anda comigo diariamente fazendo a minha vida ter esse ciclo que não cessa. Tem a ajuda do tempo, das horas, dos momentos.
Queria poder lhe dizer o quanto estou ultimamente me sentindo mal em relação a você, não por você em si. Não. Acho que tenho que aprender a lidar com o que sinto a teu respeito. O que sinto? Impotência. Fraqueza. Como se minha liberdade se limitasse ainda mais nas regras que tua presença me impõe. Regras que existem pelas tuas mãos e que a quebra-las posso me sentir vivo em algum momento sabendo que depois voltarei a estar nas tuas mãos.  Contigo aprendi a andar, claro. Apontou-me caminho para eu trilhar e foi muito importante para meu crescimento, porém, olho ao meu redor e vejo outros tantos que seguem o mesmo caminho. Todos marchando com mesma perna e pensamento. Não sou eles e eles não são eu. Sou único. Eles são únicos. E você põe a regra que devemos ter alguma igualdade.
Nunca fui igual a ninguém. Nem que eu quisesse. Tenho modos meus de ser e de fazer dentro de você. Tenho meu modo de existir e sei que sem você é impossível. Sei que oferece um chão para eu pisar e plantar meus sonhos. Mas, quero ter sempre a primazia de escolha do que quero plantar. Quero poder sonhar, sonhar muito e ter direito de desistir dos meus sonhos a qualquer momento sem pedir permissão aos outros. Quero poder simplesmente existir sem qualquer prisão. Respirar livremente nas minhas idéias de mundo. Sem me preocupar se está errado em relação a maioria. Não sou a maioria. Sou único. Como você é única em minha vida. Espero poder aprender a viver em paz contigo, mesmo sabendo que nesta luta é que me torno especialmente individual e vivo.
Num dado momento, escaparei de tuas mãos e, como uma criança, vou me esconder. Enquanto não me achar vou aprender que posso tirar folga de você e ser feliz em qualquer minuto desta separação. Até lá seguro tuas mãos macias e frias neste dia ensolarado que convida para brincar de ser feliz.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Matando a fome

De repente me deu uma fome de algo novo, diferente. Algo que todo mundo sente necessidade em algum momento. Uma fome de viver. Essa fome veio me tomando o ser inteiro. Tanto que me pegou de surpresa sem saber ao certo como começar. Começar nem sempre é fácil, nem sempre é previsível. A fome nos leva ao alimento. Sinto fome de poder experimentar a vida nos diversos temperos por aí. Um pouco apimentada talvez, menos salgada, mais saborosa, menos insossa. Sinto vontade de devorar sem pensar se estou cometendo alguma gula. Vida não engorda.
Levado por essa grande vontade já fui às bancas das livrarias e nas páginas de internet encontrei algumas receitas sim, mas nenhuma delas foi capaz de saciar minha fome. Parecia tudo muito pequeno, reduzido demais nas fórmulas. Receitas prontas não fazem muito meu gênero. Decidi pegar essas receitas e mistura-las dentro de mim e fazer uma receita que seja própria a minha fome.
Não preciso ir ao mercado buscar qualquer coisa. Tenho todos os ingredientes. Nasci com eles. Alguém um dia falou que viver é simples. Se assim fosse por que tanta gente ainda morre de fome por aí? Simplicidade complicada essa. Talvez porque as pessoas transformem esse momento tão simples e singelo numa grande aula de química. Onde temos que juntar elementos e decorar fórmulas já prontas por algum sábio. Nunca gostei das aulas de químicas.
Para muitos a hora de comer é um tormento. Come-se com pressa porque o tempo é curto demais. Ou então se come pensando na sobremesa e esquece que tudo tem seu tempo. Diversão não é tudo. Enfim, estou aprendendo a saborear cada momento porque sei que único e que esse sabor é que tempera todas as coisas. Acordei mais leve hoje, mais satisfeito por querer aproveitar a vida. Não tem uma receita, mas tem um monte de elementos que juntando pode dar aquele toque inesquecível que dará algum sentido ao curto tempo que temos para saciar a nossa fome.

domingo, 24 de abril de 2011

Ganhando distância

Tem gente que me questiona até hoje dos meus sumiços. Explico-me. É que tem períodos de minha vida que eu me sufoco com meus compromissos, com meu cotidiano, com as pessoas amigas ou não. Nesse momento que algo dentro de mim diz que é hora de tomar distância e lá vou eu saindo por uma porta qualquer e indo por ruas tortuosas em busca de paz. Encontrei muitas vezes, viu?
Não sei como os outros lidam com o peso do dia a dia, mas comigo é necessário esse distanciamento para respirar um novo ar. Refrescar minhas emoções. Tomar novos ares e conhecer a vida de um outro jeito. E funciona porque sempre volto mais forte. É como aquela modalidade atlética de salto com vara que precisa tomar distância para poder voar além do limite estabelecido. E como tem limites na vida. Muitos que nós mesmos permitimos. Lá vou eu ganhando distância para depois saltar o mais alto que eu puder e se for possível voar além desses limites nojentos que fazem com que a gente acredite que a vida se resume aquilo, que nada além dos montes tem outras estradas que levam a tantos caminhos, basta transpô-los.
Neste momento me distanciei de um monte de coisas e ainda sinto-me perto demais. Dou passos para trás (não no passado) apenas vou ficando como observador de algumas coisas. Vejo muito. As pessoas me ensinam muito até com seus erros e tento aprender, é claro, com meus erros também. E tem essa. Às vezes tomo distancia de mim mesmo porque acabo muitas vezes sendo meu próprio obstáculo. Pulo, pulo mesmo. Para depois poder soletrar com todas as letras possíveis a palavra FELICIDADE.
Ninguém entende minhas distâncias, mas elas fazem parte do meu kit de sobrevivência que acredito que todo mundo tenha. Possuo muitas coisas ali que me “protegem” de algumas situações. Digo algumas porque sempre algo me surpreende e isto é bom. Gosto de surpresa, gosto de não ter roteiro, de não ter placas no caminho. Gosto de caminhar sem rumo de vez em quando. Sem me preocupar com o horário da volta. Um dia eu volto, sempre volto, porém com algumas diferenças: estou mais forte. Menos desgastado.
Neste momento estou distante, sei que estou. Estou de férias de algumas tantas coisas. E está tão bom. Viajar sem mala. Sem nada. Viajar sem sair do lugar, porém estar em outro mundo que se esconde dentro de outro tantos mundo esperando que alguém os descubra. Vou caminhando, não posso parar de vez. Paro somente para ver o por do sol. Até o sol tem seu descanso por que não terei o meu? Noites calmas que me escondem. Eu fico apenas contando as estrelas que brincam no céu. E digo a elas que um dia desses as alcançarei com certeza. Elas sorriem brilhando ainda mais. Um dia pulo nessas alturas, mas até lá vou apenas ganhando distancia.

Sabor de Páscoa

Para muitos esse dia de páscoa tem sabor de chocolate, onde cada qual abre seus ovos e se deliciam como nunca. Parece que o chocolate ganha um sabor mais que especial nessa época. Parece que tem um toque de magia nele nesta data e é imprescindível não levar a boca um pedaço que seja deste alimento divino e santamente doca à boca. Porem, mais que chocolate essa data deve ter um outro sabor que muito nem pensam. Um sabor que necessitamos sentir todos os dias mais do que qualquer outro alimento. Precisamos deste sabor de recomeço. Páscoa para mim é um recomeço uma nova manhã. É aquela página em branco onde posso escrever meus rascunhos, meus borrões sem medo. Porque existe ressurreição...
A morte não é mais capaz de segurar nossos sonhos porque esses ganharam asas capazes de subir tão alto, tão alto...
Precisamos crer que existe uma nova chance para seguirmos em frente e que não existe mais lugar ao desespero na nossa vida, apenas desejos a se realizar.
Muitos gostam de se lamentarem de suas dores, de lamberem suas feridas e isto não leva a nada. Essas coisas acontecem e pronto. Viver é machucar-se sabendo que em algum lugar encontraremos remédio. Páscoa é um remédio ao tédio em que nos metemos. Essa rotina caótica que nos engole freneticamente sem que o percebamos. Somos capazes de sonhar, de voar, de subir além das nuvens. Cadê suas asas. Lembre-se que morte é passado. E seu passado é morto. A vida acena a alguns metros a frente, logo chegaremos se andarmos. A velha amiga nos sorri e quer contar novas histórias e enfeitar nossas vidas com a magia daquele momento que depois morre em algum lugar no passado para ressurgir na nossa memória. Sim, viver e morrer faz parte, mas podemos escolher hoje se queremos esse sabor de poder viver cada momento como único. E ter em nossa vida um sabor maravilhoso desta páscoa sem fim.

Intimos

O casal era perfeito. Havia se conhecido há muitos anos atrás e todos que os conheciam sabiam como terminaria aquela história: no altar. Desde o primeiro momento houve aquele laço que os amarrou eternamente um ao outro. Era um tipo de pacto feito nas ações mais do que as palavras. A base de tudo entre eles era a verdade, pura e simplesmente. Com esta verdade, não havia entre eles nada desconhecido. Suas almas eram mais que transparentes. Um podia ler o outro com tamanha facilidade que o resultado só podia ser aquela de sentir-se seguro.
Aquele tipo de sinceridade entre eles chamava atenção dos outros casais amigos. Perguntavam se tamanha verdade não poderia causar medo ou algo assim. Segredos são necessários para sobreviver, afirmavam. O casal meneava a cabeça. Amavam a verdade transparente e liquida que jorrava naquele relacionamento. Saciavam-se mutuamente com o que o outro era na verdade. Mesmo que às vezes aquilo que o outro às vezes aparecia de forma dolorida, mesmo assim, pois até as feridas eram conhecidas.
Chegaram num tal ponto de intimidade que as palavras não tinham mais importância alguma. Apenas um olhar bastava para saber do que o outro precisava. Fosse o que fosse. Tudo era fácil de ser compreendido. Atendido. Com o tempo essa verdade foi se tornando cada vez mais dura e insensível. Desapareceu um pouco o carinho humano que havia entre eles, sumiu o respeito. As palavras vinham sem alma, sem segredo, sem emoção. Começaram a desprezar um pouco sua própria verdade que pontiaguda eram enfiadas em suas carnes todos os dias.
Já se tornara suportável aquele cotidiano sem qualquer cortina que os protegesse contra o outro. Aquela maneira obvia de vida. Aquela maneira previsível de se olharem e se entenderem, tudo era pesado demais. Fazia falta a surpresa, o mistério, aquela maneira sinistra de não saber nada ou quase nada sobre o que o outro é ou pensa. Precisavam de segredos urgentemente. E assim, decididos se afastaram cada qual seguiu seu próprio caminho para conseguir seus segredos.
Nos primeiros dias era uma novidade horrível, depois foi suavizando. Foram bebendo daquela maneira única de viver sem que o outro tivesse conhecimento. Amigos novos, lugares novos, experiências novas, tudo novo e imprevisível. Os dias nunca eram iguais. Nunca se repetiam. Aprendiam muitas coisas. Quando acharam que já estavam bem abastecidos de segredos, voltaram. E quando os olhos de um colaram nos do outro, um irradiante sorriso abriu-se generosamente nos lábios. Porque já eram estranhos.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Antes de entrar

Limpe os pés antes de entrar
A porta está aberta
Gire o trinco
Entre em silêncio
Não cante
Nem assovie
Preciso me ouvir
Falo tão pouco comigo mesmo
Já ouviu sua própria campainha?
Tim tim tom tom
Eles sempre chegam
Mesmo quando já estou deitado
Sempre chegam para me ouvir
E eu nunca falo
Não falo o que querem
Falo outras coisas
E eu...
E nós...
Batem a porta e se vão
Deixando pegadas por onde passaram.
Por isso digo limpe bem os pés
Mesmo assim sei que verei tuas pegadas
Sempre os que entram deixam marcas
E terei as suas também, meu bem.
Não é nojo.
É entendimento.
Não é bobagem.
É fato.
Sempre fato...
Hoje estou aqui
Vou te receber
Entre nós...
Sintonia.
Amor. Sinfonia. Campainha que soa...
Nós dois... Uma história que tem portas abertas...
Para quem quiser entrar.

sábado, 16 de abril de 2011

Felicidade nua

O que mais chamava atenção em Dona Emilia não era o fato dela viver sozinha por que solidão na sua idade era natural, uma marca daquela idade que avançava sempre ladeira abaixo. Também não era o fato dela ser viúva porque precisamente é coisa da vida saber perder, principalmente se for entes queridos que tanto amamos. Nada disso. Ela se distinguia pelo modo como andava, falava, cantava a vida. Tinha uma energia que emanava dela que dificilmente se encontra em outra criatura humana. Ela se divertia com qualquer coisa que a vida lhe oferecesse, sofria tudo também, mas as lágrimas que lhe vinham era de uma gratidão por estar viva e poder sofrer quando tanto nem isso podem mais. As mãos enrugadas demonstravam força quando apertava as outras mãos conhecidas e amigas daquele bairro antigo. Morava ali há muito, muito tempo. Fazia parte dela aquele lugar. Cada esquina, cada pedra do chão, cada folha de cada árvore a conhecia.
Todo mundo olhava para aquela mulher tentando ao menos saber seu segredo. Para ela a felicidade lhe vinha tão fácil, automático. Sempre sorria, sempre brincava, sempre de bem com a vida. Uma pessoa extremamente cheia de energia. As crianças chamavam-na carinhosamente de Mimi e ela adorava. Namorados? Aos montes, mas todos acabavam indo embora por não agüentar tamanha felicidade. Viver com ela é estar permanentemente numa festa com musica rolando uma atrás da outra. Ninguém tinha aquele pique. Ela dava de ombros e continuava. Entendeu que as pessoas precisam de uma dose diária de tristeza e mazelas, mas ela em algum lugar lá no fundo de sua história abriu mão do sofrimento e decidiu mostrar sem frescuras sua felicidade. Decidiu que sua felicidade nunca dependeria dos outros, somente dela mesma. Que reclamar não faz nada a não ser contaminar as pessoas ao redor com seu pessimismo. Decidiu que sorrir é gratuito e mágico, transforma cada momento em ouro valiosíssimo.
Sua rotina era simples, porém vividos intensamente. Respirava o ar sentindo o cheiro da vida. Não tinha mais pressa para chegar porque descobrira que o itinerário é tão importante quanto o destino que se deseja. Expressa sempre sua bondade, não para exibicionismo de uma piedade cristã, não nada disso, fazia-o apenas para tornar as pessoas tão felizes quanto ela. A felicidade, dizia ela, faz com que desejemos compartilhar de algum modo. E ela compartilhava, ainda que para muitos, Dona Emilia fosse uma velha louca, ou então uma viúva alegre. As pessoas tinham medo daquela felicidade perigosa que era tão vivida nela. Uma doença que poderia ser contagiosa e tirar aquilo que o ser humano preza durante toda a sua existência o direito de ser triste, de morrer na sua própria poça de lágrimas, lamentando-se do não tem e também do que possui.
Dona Emilia caminha lentamente indo rumo a padaria. Ainda sorri com a mesma intensidade sem dar bola aos comentários. Ainda vive na sua felicidade nua que não precisa de disfarce ou de desculpas para existir. Apenas existe e pronto. Apenas existe e pronto. Dona Emilia é assim, apenas é feliz e pronto.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A muralha

Apenas fechei as cortinas. A janela mostrava demais e eu não queria ver o mundo e nem ser visto por ele. Puxei silenciosamente as cortinas que se renderam a minha vontade e depois de fechadas notei que de um lado estava eu com minha solidão amiga e do outro o mundo com sua própria solidão. Fiquei feliz com essa divisão porque no momento o mundo é cheio demais para mim. Quero apenas um espaço para estar. Apenas um pequeno espaço onde posso ser eu mesmo e nada exigir ou ser exigido. As cortinas bloqueiam a curisidade e afastam qualquer visita indesejada. Fico eu mesmo aqui comigo mesmo.
Incomoda-me muito saber que alguém me olha, me analisa, me deseja ou me repele. Neste momento não desejo nada disso. Não desejo que me vejam. Quero ficar escondido atrás dessas cortinas tão claras e minhas cumplices. Elas estão comigo neste meu desejo de ser sem ser visto, analisado,massacrado. Nunca sou o que os outros veem. Nunca sou o que eu estou vendo. Tudo é um defeito de ótica tão grande, tão grande. Evito também olhar além das cortinas porque existe uma multidão de coisas acontecendo daquele lado. Vida em movimento que me atordoa. Muita vida, muita energia e eu querendo ficar um pouco apagado. Quieto em mim mesmo. Nada vejo, nada sinto, nada questiono...
Quando se cobre alguma coisa ela se torna sagrada. As cortinas tem o poder de esconder e sacralizar tudo. O mundo tornou-se mais sagrado para mim depois que fechei minhas cortinas, despois que me escondi e eu tornei um pouco sagrado para o mundo que não sobrevive sem fé. Tudo graças as minhas santas cortinas, amém.
Nem sempre elas ficarão fechadas. Haverá um momento em que as abrirei e permitirei que o mundo me veja como quiser até lá apenas fico desse lado da muralha existindo e deixando que tudo o mais exista sem minha observação.

Mais tarde

Existe aqui e o agora, mas nenhum deles é o que eu preciso no momento. Estou doente e o tempo me cobra tanta saúde que me mata aos poucos. Tenho que sorrir sem vontade e viver sem vontade. Vou arrastando a minha exitência num chão pedregoso de interrogativas sem respostas. Ouvi minha própria voz perguntando-me o que eu terei... e não soube me responder. Eu agradeço aquela solidariedade de se calar. Tem feridas que cicatrizam meu bem e eu sou uma delas. Basta o tempo quieto que vai entrando ou saindo de mansinho na ponta dos pés.
Agora não tenho as respostas de ontem. Velhas perguntas que ainda rolam por aí. Velha mania de dar nomes aos bizarros seres que existem dentro de mim. São todos selvagens e territoriais. Cuidado. Decifra-me ou devoro-te. Agora estou tetando apenas não pensar muito porque de nada adiantaria pensar, sinto todo esse vazio de exitência que já me perturbou no ontem, mas no hoje apenas me faz companhia numa mesa do chá. Eu existo nesta falha do tempo que insiste em correr pelos meus corredores gritando que ainda tenho o tempo. Mentira. Nunca o tive. Sempre ele me teve. Sempre, sempre e isto me enlouquecia porque não quero neste momento pertencer a ninguém e nem possuir ninguém porque não tenho forças. Se quiser fugir é esse o momento. Não correrei atrás de você. Vou andando pelos meus desertos sem nome. Comendo as areias que o vento sopra e o tempo marcando algumas pegadas aqui e logo ali. Vejo sinais dele em todo lado. Quer brincar comigo agora... E eu lhe disse: Mais tarde.

Debaixo do tapete

Tentei arrumar minha bangunça, juro. Coloquei algumas coisas que nada mais me serviam no cesto de lixo. Despedi-me de um outro eu que um dia existiu e de que não prestava mais. Esse era descartável demais. Joguei sem pensar duas vezes. Peguei todo minha culpa e incineirei. As cinzas voaram num vento qualquer que passou pela minha janela. Se foi...
Meus amores amrelados estava congelados numa foto apertada demais para conter minhas emoções. Os amores não eram importantes quanto eu pensava. Serviram para me mostrar minha capacidade de amar... de odiar... de esquecer. Rasguei alguns desses amores antigos em mil pedaços. Amores que andam e falam, mas que me despedi tarde demais.
Lavei os objetos. Coloquei tudo dentro da copa. Tudo numa perfeita desordem. Nem me incomodou isso visto que nesta desordem achei minha liberdade perdida. Peguei-a com cuidado extremo. Ela é frágil, tímida. Agarrei-a junto ao meu corpo. Parecia bem menor do que eu me lembrava... Talvez seja por isso tão fácil de perde-la. Sei que se eu não tomar cuidado vou perde-la novamente e talvez nunca mais tenha chance de achar. Nem São longuinho me ajudará então...
Varri minhas poeiras todas. Foi dificil ver que tudo se reduz naquela poeira toda. Que tudo se diminue, se dissolve. Que tudo se esquece, perdeo sentido, o valor. O nome passa. Tudo que sentia em relação aquilo acabava sendo somente alguma coisa varrida debaixo do tapete.

Eclipsado

Lá estava minha lua que não vejo mais... e também minhas estrelas que pararam de sorrir em minhas noites. Algo me diz que não verei tão cedo o sol brilhar. A ùnica luz que vejo são pontos longiquos de lembranças que acenam num despedida ou numa chegada? Nunca se sabe.
Olho meu céu e tremo de pavor. Nada vejo. Essa escuridão me diz que minha noite é infinita. Que é melhor se acostumar porque será assim por um bom tempo. Esperança. Sei que é um virtude. Sei que devo cultiva-la,mas nesse momento é apenas um nome de uma música que ouvi em qualquer esquina e se calou. Sinto-me sem esperança, sem nada. Estou vivo? Sim respiro ainda se viver for apenas respirar porque todo o resto está coberto pelo eclipse que teima em existir. Possivelmente ele exista para que possamos dar valor aos dias ensolarados, aos dias festivos que as crinças brincam na rua. Agora quero brincar, mas nessa escuridão estou sozinho e sem sono. Se eu dormir não sonharei.
Tudo se torna misterioso demais neste negror. Toco com cuidado. Piso com cuidado. Olho com cuidado. Tudo em vão. Esse noite é afiada como um faca e vai me cortar em mil pedaços.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Roda dos mundos

Sim, era um reunião. Uma reunião de oração em que cada alma ali presente buscava um tipo de salvação. Havia um desejo de tocar no mistério que os envolvia. Um mergulhar no próprio oceano de insciência que nascia nos lábios que mexiam articulando palavras. Não eram as palavras importante, mas o que elas apontavam. Palavras são apenas uma ponte que a gente decide ou não atravessar. Muitas vezes não atravessei. Faltou coragem de minha parte. Infelizmente às vezes sou covarde e muitas vezes sabendo disso.
Havia eu e eles. Rostos que muito bem conhecia porque não era a primeira vez que nos reunimos. Já haviamos tecido um pouco de história entre nós. Já havia lembrança e isto que a vida permite que tenhamos: lembranças. Porque todo o resto é engolido pelo buraco negro do tempo. Neste momento é de lembranças que me valho para escrever. Foi puxando os fios que vem trazendo as muitas reuniões que já tive, os muitos encontros que a vida me permitiu (alguns claro contra minha vontade, mas é assim que crence). Lá estava eu num canto qualquer da sala e depois num canto qualquer da mesa. Sentei numa cadeira já que a dona da casa insistia. Falava conforme os assuntos vinham sem saber no perigo que tais palavras poderiam causar. Falar é torna-se visível aos olhos do outro. Já sofri com isso porque nunca sou inteiramente o que revelo. Aquilo é uma parte borrada e todo mundo ao ver aquele borrado deduz que sou apenas aquilo. Não, não sou.
Ali a conversa nascia desprendendo dos lábios com certa rapidez de um tiro. As piadas, sim as piadas nasciam também com a intenção de descontrair e por alguma razão eu não me divertia. Talvez pelo fato de que tantas vezes fui citado no meio dessas piadas e aí o choque. Meu mundo estremecia como um terremoto que mais ninguém perceberia porque para perceber meus terremotos as pessoas tem que ser sensíveis. Risadas vinham estridentes. Calei-me tantas vezes desejando apenas que aquela reunião terminasse. Não somente a reunião, mas também minha missão que é tão somente existir.
Os outros mundos giraram em torno de mim. Olharam-me sem, porém me enxergar. Pensei em explodir. Apenas pensei. Não, não queria explodir. Talvez em meio aquilo tudo aprenderia com muita dor a valorizar as pessoas e seus mundos e nunca, nunca mesmo entrar sem pedir permissão. Porque pode ser que eu não seja bem vindo. Tem mundos que foram feitos apenas para existir e não podemos explora-los. Seu maior trunfo é o mistério que o envolve.
Os amigos comeram, beberam, falaram. Depois cada um seguiu seu caminho no tempo e no espaço. Fiquei outra vez sozinho comigo mesmo no meu mundo que tem seus prórpios mistérios que não tenho pressa de conhecer.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Noite e Tortuta

Nem me lmebro quando ela apareceu na minha vida. Talvez foi naquele exato momento em que tomamos consciência do lado negro de nós mesmos. Ela apareceu sem cerimônia alguma e foi se instalando. Sorriu e pude sentir seu hálito que me embrulhou o estomago... Alias até hoje sinto meu estomago enjoado quando penso nela. Estava mal trajada. Falava alto. Muito alto para ter certeza que eu ouviria cada uma de suas palavras. Não precisava. Havia até no silêncio que se fazia na pausa aquele odor do veneno exalado. Quis fugir. tentei fugir. Cada esquina que dobrava aumentava meu desejo de libertação. Ela não andava. Voava. Voava em suas asas negras de anjo da morte. Continuava falando e eu? E eu morrendo aos poucos com aquelas verdades cuspidas em meu rosto. Verdades que feriam meu intimo, me cortavam em pedaços impossivéis de se recompor... Era ali ali caido na sarjeta. Rezava para a terra se abrir faminta de mim e me engulir num só bocado. A terra não se abriu... Nem ao menos se importou comigo. Ningém se importou comigo naquela noite sem fim. E o desespero aumentando, aumentando tanto. O que fazer? Nem vicio tinha para descontar. Acho que é num desses momentos que alguém fuma, bebe ou simplesmente se entorpece para esquecer. Eu, pobre miserável,fiquei ali sentindo em cada fibra as duas palavras seguidos de duros silêncios que martelavam a minha cabeça sem parar. Fechei os olhos pensando em gritar. Gritaria até num nivel que sobrepusesse aquela voz maligna e mortal. Contei até três. Um... Dois... e... Silêncio.
Abri meus olhos procurando saber o que houve. Lá estava ela rendida ao chão feita em pedaços. E perto dela um Homem todo ferido passando por aquele beco escuro carregando uma pesada cruz. Nós trocamos olhares. Ele me viu e sorriu. Eu fiquei apenas olhando. No dia seguinte os jornais noticiaram que um inocente morreu em algum lugar e em algum tempo. Fechei meus olhos e pensei... Um inocente morreu por mim.