sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Areia do tempo

È uma sensação muito forte que vai e vem sem que eu escolha. Não tem escolha. Quando vejo lá está ela instalada dentro de mim e me cutucando com aquela verdade cruel: o tempo está passando e você não pode fazer nada. Na boca o sabor de minha impotência. Nos olhos a incapacidade de ver um novo amanhã, na mente o medo (sempre ele) espreitando nas sombras do meu pensar. A angústia cresce e inunda minha cabeça, que o diga o coração. Odeio essa sensação de que algo precioso está me escapando e que nunca poderei recuperar por ser único. Posso dizer o quanto me sinto menor nessas horas. Uma onda de culpa. Será por causa da má administração da minha vida que gera esse sabor amargo.
O tempo não para, cantava Cazuza. O tempo nunca para. Esse movimento constante acontece sempre sem que nada possa ser feito. Ou corremos ao lado dele e com ele ou ficamos para trás apenas sentindo aquela poeira em nosso rosto. Essa é a verdade crudelíssima deste mistério chamado: vida.
No nosso mundo contemporâneo, o homem tenta de todo jeito dominar o tempo. Isso se vê pelas jornadas de trabalho, o homem moderno sempre está correndo aqui e ali. Ele sempre está fazendo três coisas ao mesmo tempo recusando descanso neste período. Na estética, nunca fora inventado tantos produtos para amenizar as marcas do tempo deixados nos corpos. Engraçado que, andando por aí o gesto mais comum que vemos as pessoas executando é o olhar (mesmo que discreto) para o relógio de pulso ou no visor do celular. Eu tenho esse vício. Poucas vezes consigo me desligar do relógio.
Falando em vício relacionado ao tempo, também tenho o costume de andar rápido, esteja eu atrasado ou não. Aliás, nunca me atraso. Sou pontual demais. Chego aos meus compromissos bem antes (e bote antes nisso!) do horário marcado. Tenho aquela ansiedade de chegar logo. Mas, essa pontualidade toda me traz muita dor de cabeça porque somente eu sou assim, geralmente os outros sempre chegam depois (bem depois!) do que marcaram comigo. Fico muito chateado porque para mim isso mais do que falta de consideração, é falta de educação! Sim, tenho nisso alma britânica. E também adoro tomar chá (risos).
Ultimamente tenho pensado nesse tempo que está correndo. O ano está terminando e, como nos anos anteriores, estou sentindo aquela depressãozinha apontando. Ando muito pensativo. Introspectivo. Fico inquieto pensando em mil coisas para fazer e, no final, não faço nada. Isso acaba comigo. Sinto minha incapacidade perante a vida. Ela me parece oca demais. Pior ainda é sentir essa culpa por não saber ainda lidar com isso. Tento levar numa boa. Rir dessa situação. Mas, chega num dado momento como agora que fica esse vazio de respostas às minhas inúmeras perguntas. Será se eu quebrar um relógio com uma marreta me sentiria melhor? Ou rasgar todos os calendários? Coisas assim...
Houve um tempo que nem pensava nisso. Viver era tão fácil. E havia um sentimento de dia vivido plenamente que faz com que eu pergunte onde esse EU foi parar. Se alguém esbarrar com ele por aí peça para ele voltar para mim com urgência. Claro que sei que estou vivendo uma clássica crise existencial. Sei que tenho que passar por isso porque faz parte da minha evolução como pessoa.  Queria apenas fazer as pazes com o tempo. Brincar com ele de vez em quando. Voltar a sorrir enquanto olho a areia de uma ampulheta caindo e formando apenas um castelo para os meus contos de fadas.

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