Escrever é um forma de se encontrar e também de se perder. É um desenrolar de pensamentos soltos que boiam no espaço aberto da mente. Escrever é organizar de alguma forma a desorganização que existe em nós. Chamo de desorganização com a incerteza já que é algo que minha própria natureza se alimenta. O que chamo de desorganização é aquela organização que me escapa. Nela existe tanta liberdade que ninguém consegue entender muito bem. Essa liberdade é tamanha por isso assusta. Dar nome é um modo (seguro?) de organizar. Um modo de apreender essa liberdade encaixando-a num epaço qualquer de consciência.
Escrever é uma busca de tesouros que já são nossos. É mexer nas gavetas da memória, nos armários dos sentimentos, nas engrenagens da inteligências. É uma minuciosa busca de se construir de novo, de novo, de novo. Nessa busca interior encontro outros personagens que sou. Maneiras diferentes de ser. Tenho muitos rostos, nem estou falando de falsidade. Estou falando em maneiras (in) conscientes de sobreviver.
Escrevendo vou tomando maior clareza do que sou, do que penso, do que sinto. Por meio das palavras, me aproximo deste querido estranho. Como um certo amigo uma vez reclamou de não entender os "mecanismos" que acontecem comigo, digo que quisera quisera responder que entendo, mas não. Infelizmente eu não me entendo claramente. Tento apenas respeitar meu próprio mistério, as minhas inconstâncias, meus mecanismos. Respeito o que não entendo. E acho que foi exatamente a falta desse respeito que transtornou minhas relações. Perguntar às vezes machuca sim. Já sangrei muito.
Neste escrever vou dialogando calmamente com várias partes de mim. Vou desvendando, me apaixonando. O amor sempre vem depois do conhecimento. Do contrário seria delírio.
Escrever é um modo de manter meus pés no chão. É ancora que me mantem dentro da realidade. É um meio de aceitá-la para depois ir tranformando-a. Mas, escrever já é um modo de tranformação dessa realidade. A escrita suaviza o que existe. Vai acariciando uma fera que morde quem se vê pela frente.. Sim, é um modo de amansar o nervoso cotidiano que nos esmaga como pequenos insetos.
Escrever é um modo de existir. É um modo de continuar falando, falando até que alguém escute e depois entenda e depois explique. É um processo vivo e interessante. Todos podem vivencia-lo, mas apenas os corajosos em navegar em suas próprias linhas pode sorrir ao mesmo tempo que derrama lágrimas.
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