Contemplo a chuva que suavemente molha o solo. Imagino a felicidade daquela gota que cumprira de maneira heróica sua sublime missão. Ela que nascera para morrer em seu primeiro beijo. No momento exato que sentira o solo concreto, duro e frio.
Imagino a ansiedade dessa gota que já nascera com um destino: morrer. E não uma morte infrutífera. É uma morte que dá vida numa entrega total. O solo espera o beijo molhado, tem sede dele. Olha o céu cheio de nuvens que, por sua vez, estão cheias de possibilidades. Entre esse céu e esse chão estou eu. Eu que anseio a mesma coisa. Eu que espero algo que ainda não chegou. Estou sempre esperando. Claro que já houve algumas desistências, depois algo reacende minha ânsia. Não falo de amor. Esse sei que vem um dia, fere e mesmo assim deixa um gosto de felicidade possível.
Meu céu está nublado como lá fora. Estou pesado como as nuvens cinzentas. Estou querendo me aliviar e dar neste alivío alguma vida para alguém. Como faço para me desfazer? Quero deixar de existir por um tempo. Quero existir no outro, mas não como parasita. Que um pedaço de mim fique gravado em alguém. Chover é marcar, é ferir. Vai matando a sede e deixando marcas de missão cumprida.
Eu gosto da chuva. Ela me leva a reflexão mesmo no meio do meu próprio caos. Faz com que eu pense no sentindo da vida que consiste em fazer germinar mais vida, mais frutos.
Minha vida tem que ser essa chuva que desce ao encontro daquele que precisa. Daquele que clama com tamanha sede uma chance pra ser feliz.
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