O casal era perfeito. Havia se conhecido há muitos anos atrás e todos que os conheciam sabiam como terminaria aquela história: no altar. Desde o primeiro momento houve aquele laço que os amarrou eternamente um ao outro. Era um tipo de pacto feito nas ações mais do que as palavras. A base de tudo entre eles era a verdade, pura e simplesmente. Com esta verdade, não havia entre eles nada desconhecido. Suas almas eram mais que transparentes. Um podia ler o outro com tamanha facilidade que o resultado só podia ser aquela de sentir-se seguro.
Aquele tipo de sinceridade entre eles chamava atenção dos outros casais amigos. Perguntavam se tamanha verdade não poderia causar medo ou algo assim. Segredos são necessários para sobreviver, afirmavam. O casal meneava a cabeça. Amavam a verdade transparente e liquida que jorrava naquele relacionamento. Saciavam-se mutuamente com o que o outro era na verdade. Mesmo que às vezes aquilo que o outro às vezes aparecia de forma dolorida, mesmo assim, pois até as feridas eram conhecidas.
Chegaram num tal ponto de intimidade que as palavras não tinham mais importância alguma. Apenas um olhar bastava para saber do que o outro precisava. Fosse o que fosse. Tudo era fácil de ser compreendido. Atendido. Com o tempo essa verdade foi se tornando cada vez mais dura e insensível. Desapareceu um pouco o carinho humano que havia entre eles, sumiu o respeito. As palavras vinham sem alma, sem segredo, sem emoção. Começaram a desprezar um pouco sua própria verdade que pontiaguda eram enfiadas em suas carnes todos os dias.
Já se tornara suportável aquele cotidiano sem qualquer cortina que os protegesse contra o outro. Aquela maneira obvia de vida. Aquela maneira previsível de se olharem e se entenderem, tudo era pesado demais. Fazia falta a surpresa, o mistério, aquela maneira sinistra de não saber nada ou quase nada sobre o que o outro é ou pensa. Precisavam de segredos urgentemente. E assim, decididos se afastaram cada qual seguiu seu próprio caminho para conseguir seus segredos.
Nos primeiros dias era uma novidade horrível, depois foi suavizando. Foram bebendo daquela maneira única de viver sem que o outro tivesse conhecimento. Amigos novos, lugares novos, experiências novas, tudo novo e imprevisível. Os dias nunca eram iguais. Nunca se repetiam. Aprendiam muitas coisas. Quando acharam que já estavam bem abastecidos de segredos, voltaram. E quando os olhos de um colaram nos do outro, um irradiante sorriso abriu-se generosamente nos lábios. Porque já eram estranhos.
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