O que mais chamava atenção em Dona Emilia não era o fato dela viver sozinha por que solidão na sua idade era natural, uma marca daquela idade que avançava sempre ladeira abaixo. Também não era o fato dela ser viúva porque precisamente é coisa da vida saber perder, principalmente se for entes queridos que tanto amamos. Nada disso. Ela se distinguia pelo modo como andava, falava, cantava a vida. Tinha uma energia que emanava dela que dificilmente se encontra em outra criatura humana. Ela se divertia com qualquer coisa que a vida lhe oferecesse, sofria tudo também, mas as lágrimas que lhe vinham era de uma gratidão por estar viva e poder sofrer quando tanto nem isso podem mais. As mãos enrugadas demonstravam força quando apertava as outras mãos conhecidas e amigas daquele bairro antigo. Morava ali há muito, muito tempo. Fazia parte dela aquele lugar. Cada esquina, cada pedra do chão, cada folha de cada árvore a conhecia.
Todo mundo olhava para aquela mulher tentando ao menos saber seu segredo. Para ela a felicidade lhe vinha tão fácil, automático. Sempre sorria, sempre brincava, sempre de bem com a vida. Uma pessoa extremamente cheia de energia. As crianças chamavam-na carinhosamente de Mimi e ela adorava. Namorados? Aos montes, mas todos acabavam indo embora por não agüentar tamanha felicidade. Viver com ela é estar permanentemente numa festa com musica rolando uma atrás da outra. Ninguém tinha aquele pique. Ela dava de ombros e continuava. Entendeu que as pessoas precisam de uma dose diária de tristeza e mazelas, mas ela em algum lugar lá no fundo de sua história abriu mão do sofrimento e decidiu mostrar sem frescuras sua felicidade. Decidiu que sua felicidade nunca dependeria dos outros, somente dela mesma. Que reclamar não faz nada a não ser contaminar as pessoas ao redor com seu pessimismo. Decidiu que sorrir é gratuito e mágico, transforma cada momento em ouro valiosíssimo.
Sua rotina era simples, porém vividos intensamente. Respirava o ar sentindo o cheiro da vida. Não tinha mais pressa para chegar porque descobrira que o itinerário é tão importante quanto o destino que se deseja. Expressa sempre sua bondade, não para exibicionismo de uma piedade cristã, não nada disso, fazia-o apenas para tornar as pessoas tão felizes quanto ela. A felicidade, dizia ela, faz com que desejemos compartilhar de algum modo. E ela compartilhava, ainda que para muitos, Dona Emilia fosse uma velha louca, ou então uma viúva alegre. As pessoas tinham medo daquela felicidade perigosa que era tão vivida nela. Uma doença que poderia ser contagiosa e tirar aquilo que o ser humano preza durante toda a sua existência o direito de ser triste, de morrer na sua própria poça de lágrimas, lamentando-se do não tem e também do que possui.
Dona Emilia caminha lentamente indo rumo a padaria. Ainda sorri com a mesma intensidade sem dar bola aos comentários. Ainda vive na sua felicidade nua que não precisa de disfarce ou de desculpas para existir. Apenas existe e pronto. Apenas existe e pronto. Dona Emilia é assim, apenas é feliz e pronto.
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