sexta-feira, 15 de abril de 2011

A muralha

Apenas fechei as cortinas. A janela mostrava demais e eu não queria ver o mundo e nem ser visto por ele. Puxei silenciosamente as cortinas que se renderam a minha vontade e depois de fechadas notei que de um lado estava eu com minha solidão amiga e do outro o mundo com sua própria solidão. Fiquei feliz com essa divisão porque no momento o mundo é cheio demais para mim. Quero apenas um espaço para estar. Apenas um pequeno espaço onde posso ser eu mesmo e nada exigir ou ser exigido. As cortinas bloqueiam a curisidade e afastam qualquer visita indesejada. Fico eu mesmo aqui comigo mesmo.
Incomoda-me muito saber que alguém me olha, me analisa, me deseja ou me repele. Neste momento não desejo nada disso. Não desejo que me vejam. Quero ficar escondido atrás dessas cortinas tão claras e minhas cumplices. Elas estão comigo neste meu desejo de ser sem ser visto, analisado,massacrado. Nunca sou o que os outros veem. Nunca sou o que eu estou vendo. Tudo é um defeito de ótica tão grande, tão grande. Evito também olhar além das cortinas porque existe uma multidão de coisas acontecendo daquele lado. Vida em movimento que me atordoa. Muita vida, muita energia e eu querendo ficar um pouco apagado. Quieto em mim mesmo. Nada vejo, nada sinto, nada questiono...
Quando se cobre alguma coisa ela se torna sagrada. As cortinas tem o poder de esconder e sacralizar tudo. O mundo tornou-se mais sagrado para mim depois que fechei minhas cortinas, despois que me escondi e eu tornei um pouco sagrado para o mundo que não sobrevive sem fé. Tudo graças as minhas santas cortinas, amém.
Nem sempre elas ficarão fechadas. Haverá um momento em que as abrirei e permitirei que o mundo me veja como quiser até lá apenas fico desse lado da muralha existindo e deixando que tudo o mais exista sem minha observação.

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